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Morta ou Coisa Melhor...

Comecei a mutilar-me aos 14 anos. Tudo começou por acidente: parti um termómetro e ao apanhar os vidros do chão cortei-me nas mãos. Nesse dia cortei as mãos com um X-acto... Na verdade, a minha vida de adolescente não corria nada bem, o que propiciou ainda mais o início da minha auto-flagelação. Achava-me horrível, abominava o meu corpo... Tudo em mim era odiável. Sofria na altura de bolimía e anorexia, deveria estar de facto muito deprimida, apesar de não dar conta. O meu irmão tinha acabado de morrer e eu ainda não tinha aceitado a situação. Sentia-me extremamente culpada por tudo de mau que acontecia em meu redor... Havia necessidade de me castigar.

De facto, fiz coisas hediondas. Espalhava o sangue dos meus cortes pela cara e tirava fotografias. Acho que houveram momentos em que estive realmente louca, não tinha a mínima noção do que fazia, nem das consequências que as minhas atitudes podiam trazer para a minha vida e para a minha saúde. Cheguei a querer matar a minha cadela para me banhar no seu sangue... Fiquei obcecada por tudo o que envolvia cortes e sangue.

Na noite de Natal de 1998 (o Natal sempre me deprimiu...) cortei-me pela 2ª vez no braço esquerdo. Cortei devagar para sentir todos os pedaços de dor, para ver todos os rios de sangue a escorrerem por mim. A mutilação continuou na noite de Ano Novo; completei o que tinha feito na noite de Natal. As cicatrizes assemelham-se a um golpe de unhas de um felino de grande porte. Os meus pais encontravam-se alheios á situação e ao pesadelo que vivia... Lentamente comecei a cortar-me de forma diferente. Tinha tanta raiva contida que a descarregava no meu corpo com grandes golpes.
Muitas foram as vezes em que o chão e as paredes do meu quarto ficaram completamente manchados de sangue. As marcas ainda hoje cá estão...

No dia 11 de Janeiro de 1999 tentei suicidar-me. Tomei uma grande dose de medicamentos (como fui burra...) e fui parar ao hospital. Estive lá dois dias. A minha mãe viu as minhas atrocidades no braço. Não estava ao meu alcance continuar a esconder, tinha que me assumir.

Chorou muito. Chorei também.

Depois de sair do hospital, percorri vários outros que me prescreveram vários medicamentos que só me deprimiram ainda mais. Passei duas semanas de cama sem comer absolutamente nada. Com 1.70cm estava a pesar 38Kg. Acabei por ser internada num hospital psiquiátrico, onde, á chegada, me revistaram todas as bagagens para verificar se possuia algo com que me pudesse magoar. Tiraram-me o tabaco. Lá comecei a ter aconselhamento com um psiquiatra (que acabou por continuar a seguir-me durante 2 anos). Impediam-me de sair, as janelas tinham grades, as portas não tinham chaves. Comecei a enlouquecer... Duas semanas após a minha chegada fingi sentir-me recuperada para poder sair dali. Saí.

Acabei por vir igual e daí talvez pior. A auto-mutilação regressou em força, os meus braços ficaram irreconhecíveis. Tinha os meus pais a controlarem-me a todo o momento, não me largavam um segundo que fosse. Isso não me impediu de me continuar a cortar. O que tinha começado por ser uma espécie de castigo havia-se tornado num prazer, num hobbie. Fazia-o a todo o momento, cheguei a fazê-lo na escola em frente de toda a gente, num momento de desespero. Toda a gente me passou a olhar de outra forma; passaram a evitar-me, pois assumiram que eu havia enlouquecido. Ainda agora as pessoas reparam nas minhas cicatrizes e fazem comentários baixinho ou então chegam mesmo a agredir-me verbalmente. Tudo porque são incapazes de compreender a dimensão gigante que é este problema da auto-mutilação. Enfim...

Sempre senti atracção pela Morte e toda a sua envolvência. Ao cortar-me sentia-me mais próxima Dela, sentia-me a vibrar num transe profundo, enebriante. Aos 15 anos cortei um pulso; foi um corte bastante profundo, mas não chegou a atingir nenhuma veia vital, pois rapidamente parou de sangrar.

Cheguei a ter relações vampíricas. Cortavamo-nos no pescoço um do outro e bebiamos o sangue. Era uma sensação louca, como se toda a vida, toda a força dele passasse para mim. Rapidamente fiquei como dependente de sangue. Cheguei a tirá-lo das minhas veias com uma seringa para beber. Ainda hoje o faço. Que dias loucos...

Os anos foram passando, mas não deixei nunca de me cortar. Ao olhar para trás, de nada me arrependo, pois se não tivesse tido estas lições de vida, não seria a pessoa que hoje sou. O último corte que fiz mede cerca de 25cm, ocupa quase toda a altura do braço. Fi-lo acerca de uma semana...

Para concluir apenas quero dizer que sofri e ainda sofro muito, pois vejo a minha vida a degradar-se lentamente sem nada poder fazer... A todos aqueles que nunca experimentaram o insano mundo da auto-flagelação, só posso dizer o quanto vos admiro e que nunca caiam na tentação de o fazer. Não se destruam... por dentro... e por fora.

É a humilhação no seu sentido mais puro...

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submitted by: Anonymous
on: 22 Sept. 2004
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Artist: Me
Studio: My+Room
Location: Portugal

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